terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

… longe vai o tempo em que as cruzes a deixavam trabalhar cmás mulheres mais novas...

… Andava de joelhos (longe vai o tempo em que as cruzes lhe permitiam que realizasse aquele trabalho com destreza, de pernas hirtas, direitas, curvando somente o tronco e cabeça para a frente. Tinha já uma boa dúzia de gabelas de pasto apanhado, mesmo arrastando-se de joelhos em cima do saco de sisal que trouxe de casa para o efeito e colocava debaixo dos joelhos, para não sentir tanto o frio nas articulações. Coisa curiosa: era canhota! E com que rapidez, mestria e certeza manobrava o foicinho coordenando a actividade dos dedos da mão direita com os golpes e movimentos impingidos ao foicinho pela esquerda! Segurava com os dedos da mão direita um pequeno grupo de pasteiros, o mais próximo possível do terreno para aproveitar e, depois, fazendo passar o foicinho entre a mão e o chão, impunha-lhe um movimento firme que levava ao corte do pasto na mão. Ainda sem largar aquele, agarrava outro tanto, repetia movimentos e tornava a agarrar outro, tantas vezes quantas aquelas que a mão e dedos podia agarrar com firmeza, garantindo sempre a máxima segurança mas não estando nunca isenta de risco. Muitos eram os cortes quando havia distracção! Logo que a mão estava cheia, fazia torção do tronco e depositava-a sobre as outras que já estavam no centro da marja até formar uma boa gabela. Vislumbrava já a sua Arminda, lá ao longe, que com a vaca ao carro vinha para levar o pasto para casa e assim alimentar o gado. A cachopa tinha apanhado uma impultada e andava agora com um emplastro nas cruzes que a não deixavam sequer dormir descansada, quanto mais trabalhar. A custo e muito devagar lá conseguiu por a vaca ao carro mas para isso tinha-lo ela deixado com os varais no ar, apoiado no arrecabém. Foi só fazer entrar a vaca ás arrecuas e depois baixar-lhe a canga para o cachaço, apeaçá-la, pôr-lhe a “brocha” e andar rumo ao fojo, local onde nos encontramos. A terra de pasto era um benza-a Deus. Vasto e graúdo que era uma riqueza. Que grande farturinha. Ia dar por aí fora comida para o gado e ainda era capaz de dar para encher dois travezes da cabana. Estava aí á porta o tempo de começar a carregar para as terras uma carraditas tirando lá de casa, da estrumeira, o monte de esterco acumulado junto aos currais do gado e que tinha por fim o estrumar as terras durante a sementeira. Este ano e naquela terra não tinha caldeado nenhum monte pois teve o precalço de a vaca lhe ter partido um corno o que levou a que estivesse sim gado durante quase dois meses. Mesmo para carregar o rapão e agulhas para a estrumeira e fazer as camas ao gado tinha recorrido ao compadre João que lhe fez três fretes do Norte e um dos foros com a sua junta de bois. “Bom homem aquele! Nem dinheiro lhe quis levar! Só andou para ele três tardes a cavar… ainda lhe deve esse favor”!

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