segunda-feira, 27 de março de 2017

boa sorte e muitas felicidades...

...Sempre falou do pai com muito respeito e convicção. Lembrou-se dum episódio em que o surpreendeu a ler qualquer coisa que arrecadava numa mala de folha, rectangular, que tinha no sote da casa de arrumação e onde acumulou recordações. O pai não o deixou, nunca, bisbilhotar o conteúdo de tal baú. Esse facto aguçou-lhe a curiosidade e repentinamente lembrou-se dele. Tu podes muito bem rir-te a bom rir que não me fazes deferença denhuma. Mas que foi berdade lá isso foi. E para to provar, dá-me aí quatro ou cinco minutos que eu vou ali dentro e já volto.
E saiu de imediato rumo á casa de arrumação deixando-me á sombra da figueira. Estava-se ali muito bem. Soprava uma aragem muito agradável, embora se sentisse a onda de calor que nesse dia fazia, parecendo até que trepava da terra para o firmamento. Assim se passaram uns bons dez minutos mas eis que regressa o meu camarada do dia sacudindo na mão um papel esverdeado, o verde já esbatido pela luz e pelo tempo e ares que o assolaram, que me entregou para que lesse e… ficou calado. Pareceu-me que se tinha ido embora! Apercebi-me de que algo estava a mexer com o seu íntimo, quase diria que lhe vislumbrei uma lágrima ao canto do olho. Parecia um envelope mas verifiquei, pelos dizeres que me saltaram á vista de imediato, que tratava dum aerograma! Isso mesmo! A forma de correspondência entre os militares em combate nas ex Colónias Ultramarinas e seus familiares e amigos no Continente. Era uma Edição exclusiva do Movimento Nacional Feminino. O transporte deste aerograma é uma oferta da TAP aos soldados de Portugal. Correio aéreo Isento de porte e sobretaxa aérea.
Fazes ideia da sinceridade do que aí está escrito? A primeira carta da minha Madrinha de Guerra! Nunca a vi! Nunca a procurei nem ela me procurou a mim. Pelo menos que eu saiba mas isso também não tem interesse denhum para ti!
Podes até ficar com ele! Ofereço-to! Mas… cuidado com os nomes que aí estão! Respeitinho, oivistes?!
E, com todo o respeito, aqui o publico neste dia em que passam cinquenta anos da data em que foi escrito! Claro que omito os nomes e endereços como me foi pedido… (traduçáo/cópia ipsis verbis da imagem)
XXXX, 26 /3/ 1967
Inesquecível João faço sinceros e ardentes votos para que a paz, saúde e alegria sejam os três principais elementos a constituir a sua felicidade que eu encontro-me bem graças Adeus.
João ao receber o seu eurograma fiquei muito surpreendida, por não saber de onde é e a quem pertence, mas desde já lhe passo a escrever para saber alguma coisa a seu fim dizia que era quase um vizinho desconheço em tudo mas se quiser que eu seja sua madrinha diga-me para a próxima, a verdade e não a mentira, porque como sabe a mentira só dura enquanto não chega a verdade e;
João digo-lhe atender ao seu pedido tenho imenso gosto nisso em ter um afilhado nas províncias Ultramarinas. Pois pode para a próxima tratar-me como madrinha não acha que está bem assim? Pois acredite nesta que lhe será sempre sincera e através de madrinha ainda podemos viver felizes um dia Deus queira que tudo isto aconteça que eu estou completamente descomprometida mas com isto não quero dizer com isto ou não fique a pensar que o estou a gozar não trato disso não sou pessoa para isso não quer crer que isto é verdade! Eu sei João que nessa vida que você está defacto deve custar bastante, quem esta abituado a andar a passear por um lado e pelo outro agora é chato, mas paciencia temos que nos conformar com o que Deus nos destina mas eu peço desde já Adeus que lhe dê boa sorte e muitas felicidades e o que eu lhe desejo mais Agora João passo a terminar pesso-lhe que quando receber esta meu eurograma que se encontre bem que estou sempre à mesma pesso-lhe do meu coração que não faça papel de comédia com as minhas palavras nunca gostei de coisas de brincadeira pois eu confio em si mas como sabe é melhor prevenir que remediar não acha
Com isto finalizo enviando-lhe, os respeitosos cumprimentos Adeus ate
Sou esta que assino respeitosamente
Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Adeus até à sua resposta sim Adeus

Olhei-o e dei por ele embebecido, esperando a minha reação ao conteúdo da missiva. Os olhos arregalados inquiriam-me. Os lábios tremiam e os dedos entrelaçavam-se uns nos outros, como que nervoso, com medo ou ansioso por uma manifestação da minha parte. Mantive-me calado, mudo, cego, imóvel. Fiz uma viagem rápida até aos longínquos anos sessenta do século passado. O que me passou pela memória! Numa primeira fase coloquei-me na pele do soldado que, longe dos seus e da terra que o viu nascer, se entretinha, passava o tempo, chorando lonjuras e saudades dos entes queridos e vida que viveu, mesmo amargurada, avivando memórias e afogando as mágoas num choro descontrolado e silencioso, daqueles me que já não há lágrimas para correr e humedecer os olhos... Logo após, passei ao papel de Madrinha… e interroguei-me com firmeza acerca dos motivos que me levaram a responder á missiva que me fez manuscrever, como resposta, aquilo que leram e redigi. Era sem sombra de dúvida uma virgem pura, educada em regime de ferro e fogo, natural e residente em lugar situado longe dos grandes centros, aldeias ou cidades, que, sensibilizada por motivos altruístas, se entregava ao eventual despudor de alguém que nem sequer sabia que existia até ter recebido a sua comunicação. Que coragem!...

domingo, 19 de março de 2017

Nunca mais fui á escola!

Na sala e já todos calados, o professor mandou a uns fazer uma cópia, a outros um problema e enquanto ditava a outros uma história, mandou que fizéssemos um desenho na lousa. O desenho que quiséssemos, mas que era para lhe mostrar quando estivesse feito.
Quando bateu o meio dia torre, mandou-nos embora para casa comer e que voltássemos às duas horas! Arrumado o ponteiro e a lousa na mala, pu-la ás costas e dirigi-me para a porta.
- Oh Manel! Manel!? - Até estremeci quando ouvi falar no meu nome – Onde é que vais com a mala? Deixa ficar isso n carteira e só a levas quando saíres à tarde.
Assim fiz e pus-me a correr para casa. Quando lá cheguei, cheirava a sopas de feijão seco…
Mas isto são coisas que te não devem interessar. Desculpa mas estava tão entusiasmado na minha matenação… Pois digo-te eu que me agarrei com engodo à nova vida e foi um vê se avias enquanto comecei encarreirar e a desenhar o a, e, i, o, u, a contar, primeiro pelos dedos e depois as coisas que estavam a minha volta e até a tabuada. Ainda antes do Natal já sabia a tabuada do um e do dois! Olha que foi agarrar-lhe a peito. Já formava palavras de duas e três letras e sabia as cores todas…
E a partir daí nunca mais se me foi a vontade de aprender. Foi-se mas é a vontade a meus pais de me deixar continuar a estudar, pois com dez anos fui a primeira vez para o Alentejo, num rancho, e lá se ficou a escola… comecei a ser ajudante de “coque”…
Nunca mais fui à escola!

Mas nem assim se me foi a vontade de aprender. Lia o Amigo do Povo com sofreguidão, sabia sempre  adivinhava as charadas e nunca larguei a tabuada que me tinham dado para estudar… E deu nisto, olha…

segunda-feira, 13 de março de 2017

um bocado de tábua...uma cana da índia

Mas voltemos à conversa. Quando lá cheguei, já o professor lá estava. Via-se bem que era entradote na idade. Talvez mais de sessenta anos. Cabelos
brancos, magro, com rugas na cara toda, enfiado dentro dum fato azul escuro e de camisa às riscas. Fomos chamados prá sala e os primeiros objetos com que encarei foi com um bocado de tábua, estreito e comprido, em cima da mesa do professor e com uma cana da índia, muito comprida, encostada ao quadro preto, grande, pregado à parede, mesmo por baixo do Crucifixo e… uma caixa de madeira, alta, cheia de rolos de papel, embrulhados e atados com um atilho de tecido. Havia ainda um almairo com portas de vidro e com muitas coisinhas lá dentro. Até pareciam brinquedos!
Muito a medo lá fomos entrando, devagarinho, atrás dos mais velhos, e fomo-nos sentando, dois em cada carteira, que era mesa ao mesmo tempo e tinha o tampo inclinado a descair para nós.  A mesa do professor estava em cima de um estrado de tábuas, se calhar era por ele ser ao pequeno, pensava eu… Lá fechou a porta, esteve a falar connosco, sempre a mandar-nos calar e a dizer como queria que a gente se comportasse. Queria que fossemos todos muito bons alunos. Que aprendêssemos bem a ler e a escrever, com letra muito bem feitinha e que soubéssemos a tabuada de cor e salteado, da frente para trás e de trás para a frente. Não me pareceu que fosse uma tarefa muito difícil de fazer! Mais difícil de fazer era cumprir s tarefas que os meus pais me pediam e mandavam fazer: carregar gabelas de lenha e grafados de pasto ou palha para tratar do gado. Dar as voltas em casa era mais duro e eu já fazia isso muito bem.
Não sei o tempo que estivemos na sala, o que sei é que o professor nos mandou pró recreio e nós fomos logo, todos contentes.

Quando entrámos outra vez, reparei que estavam umas garatujas brancas no quadro preto que saíram quando o professor lhe passou com um bocado de madeira por cima delas…

sexta-feira, 3 de março de 2017

Porque já estamos na Quaresma...

Ajoelhemos em terra
Já não somos os primeiros
Nossa companhia venha
Jesus Cristo verdadeiro
2
Ó Virgem da piedade
A devoção nos obriga
Rezemos às almas santas
Rezemos com alegrias
3
Atormentadas em dores
Em contínua padecendo
Assim são as almas Santas
No purgatório ardendo
4
Ouvi homens e mulheres
Este pobre auditório
Dai esmola se puderdes
As almas do Purgatório
5
Das almas do purgatório
É bem que nos alembremos
Todos havemos de morrer
Sabe Deus para onde iremos
6
Essa esmola que vós dais
Não cuideis que a comemos
É para dizer de missas
É devoção que trazemos
7
Essa esmola que vós dais
Com que devoção a dais
Já lá tendes vossas mães
Vossos filhos, vossos pais
8
Como Lázaro vos pede
Não vendais as fazendas
Reparti as migalhinhas
Que crescem das vossas mesas
9
Esses bens que possuis
Reparti-os nesta vida
Lá os achareis na glória
Quando fordes de partida
10
Ó almas santas benditas
Pedi a Nosso Senhor
Que esta nossa oração
Seja em vosso louvor
11
Seja em vosso louvor
Mais ao da Virgem Maria
Pelas almas Padre Nosso

Por elas Avé Maria

domingo, 19 de fevereiro de 2017

- Então e lê e escreve com todo esse à vontade...


… como sabes e eu já te disse, comi o pão que o diabo amassou. Sei que não sou denhum doutor, mas tamain me não acho denhum inculto. Não fui bafejado pela sorte, posso dizer, mas nem por isso deixei de fazer o que estava ao meu alcance para apanhar os conhecimentos que tenho. Sabias que eu só fiz a 2ªclasse?!
_ Então e lê e escreve com todo esse à vontade e perfeição?!
- Sabes que o meu professor Silvaninho, embora o não achasse grande rês, não deixava os seus créditos por mãos alheias. Lá tinha a sua maneira de ensinar… bruto que nem uma porta, mas eu acho que os professores eram todos assim! Tanta porrada naquela altura e agora, olha, é o que se vê. Passou-se de um extremo para outro. Do tudo para o nada! Mas são os tempos. Naquele tempo aprendia-se com os ensinamentos do Professor e com o medo de apanhar por não se saber! Esquisita forma de ensinar, não era? Mas olha que mito raros eram os aqueles que assim não faziam! Havia quem dissesse que os lombinhos, as febras e as galinhas também eram forma de reduzir e amenizar a força das reguadas e canadas. Mas olha que, na casa de meus pais, tudo o que ali nascia e se criava, tirando o quinhão do Senhor Doutor e o lombinho do Senhor Prior, eram para consumo regrado daquela casarada de gente. Alguns domingos lá se comia uma galinhazita com batatas, mas, tirando isso, só por doença se manjava tal iguaria. As galinhas eram para por ovos para vender e, às vezes, comer!
Mas voltemos aos tempos de escola…
Quando, naquele dia sete de outubro, aos sete anos a minha mãe me lavou, me vestiu as calças de zuarte e a camisa de riscado, me calçou uns tamancos novos e me pôs uma mala castanha, de papelão, às costas, com uma lousa e um ponteiro lá dentro e mandou para a escola (tás admirado? Me mandou, sim, me mandou! Eu fui sozinho no meu primeiro dia de e para a escola!) eu nem cabia em mim de contente! Olha que acho que nem os pés eu punha no chão! Tinha comido uma canecada de café de borra com miolo de broa. E que bem que ele me soube! Passados quase noventa anos, parece que ainda tenho aquele gosto na boca! Ai como eu me lembro daquele dia sete de outubro… Olha que éramos alguns trinta em cada sala da escola. Trinta todos na mesma sala! Alguns eram mais velhos, da 2ª. 3ª. E 4ª. Classes. Mas sempre nos demos muito bem uns com os outros. Da primeira, éramos onze. E noutra sala, da parte das meninas, deveriam ser outras tantas. Aquilo é que era garotada na escola! Agora parece que nem filhos querem! Ou eu me engano muito, ou daqui por poucos anos vão ter que encarar e resolver um problema para o qual não vislumbro solução. Pode ser que as máquinas, com todo o modernismo que por aí há, passem a fazer as mesmas coisas que os homens e mulheres. Calhando…

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

... ao Canto de Riba pinchar o engenho..

… a caminho do fojo, a esta hora, só o arrazoado das cigarras se faz ouvir. Não bole uma folha sequer. Isto é que é uma sequestra que aí está! Tempo bom para secar o milho. E ele que veio tão bom, graças a Deus.
E na verdade só o sururu das cigarras se fazia ouvir. A canícula era forte e á hora da cesta até custava respirar. Só á sombra e que se estava bem, mas os caminhos eram sempre feitos ao pino do meio-dia para aproveitar o tempo mais fresco para andar nas terras. Agora era só a rega mas muitos trabalhos havia necessidade de fazer.
Um dia destes vou ter que ir ao Canto de Riba pinchar o engenho e os alcatruzes. Vou precisar de ajuda para tirar a corrente. Não tens tempo livre? Tens algum compromisso para terça-feira?
Rematou de imediato como que a querer saber da minha vontade de colaborar com ele naquele trabalho e vontade de ir.
É capaz de ser uma boa altura para se lhe soltar a língua…

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Tristeza ou ausência de alegria?

Angustiado!
Prova o saber amargo da água com sal diluído que brota das fontes da alma sem motivo aparente.
Na verdade há vinte que entrou nos entas e embora lhe não faltem forças nem vontade sente que a envolvência se encontra cansada da presença tão assídua.
Meio século e dez!
Que fez? Porque está ainda aqui? Diz bem alto que não fez tudo o que quis, mas quis muito a tudo o que fez!
E se fosse hoje o início?
Pára absorto nesta cogitação esquisita que parece querer incomodá-lo. Nada do passado o incomoda mas começa a ficar apreensivo relativamente ao futuro.
Mas é claro que com esta idade ainda tem projetos. Projetos e garras de continuar a sonhar. Apetece-lhe gritar que há quarenta que está nos vinte! (!!!) Tal a ânsia que tem de viver, de se realizar pessoal e socialmente. Não se sente cansado. O corpo ainda não se queixa de eventuais maus tratos que lhe tenha infligindo. Os achaques que se vão manifestando vão-no ensinando a dar a volta e, sem desânimo, muitas das vezes recuar para apanhar balanço e dar o salto. Assim tem sido durante os últimos tempos. Nunca soube o que era vida fácil nem tão pouco facilitada! Com pouco farelo tem feito as papas que o veem alimentando e aos seus. Ainda não deu para provar a boa farinha. Calhando será esse o objectivo a atingir: A curto? A médio? A longo prazo? O tempo o dirá!
E aqui começa realmente a sua preocupação. Que lhe reservará o futuro? Ainda bem que o não sabe. Assim vive intensamente cada dia como se não houvesse mais fim, deste tirando proveito total e tornando cada segundo único e irrepetível. Vendo as coisas de outra forma, que terá ele feito para merecer a felicidade que o invade e inunda? A quem serviu e com que forças? Terá feito tudo o que estava ao seu alcance? Que merecimentos serão estes que se concretizam nesta alegria constante e forte vontade de viver mesmo tendo quase a certeza de já não ter outro tanto tempo para viver e usufruir deste mundo?
Sessenta anos de vida. Tantos acontecimentos e voltas dadas pela sociedade. Tanta gente com quem viveu e conviveu. Tanta gente de quem se recorda com alegria e saudade!
Tristeza ou ausência de alegria? Doença ou ausência de saúde e bem-estar? Pobreza ou ausência de riqueza? Vazio ou ausência de recheio? Isolamento ou ausência de amor e diálogo? Mentira ou ausência de verdade? Morte ou ausência de vida? Desinteresse ou falta de capacidade para querer e fazer? Ausência ou isolamento voluntário e desânimo associado à falta de objectivos? Falta de objectivos ou desinteresse pela vida? Desinteresse pela vida ou falta de objectivos concretizáveis? Obstáculos constantes ou ausência de trampolins? Negativismo ou desconhecimento da realidade?

Não desperdiça. Nunca desperdiçou o que sabe! Transmite-o para se perpetuar. O mesmo faz ao seu tempo: vive-o para o apreciar! Há direitos e deveres. Sempre optou e cultivou os segundos mesmo abdicando dos primeiros, pois a felicidade plena insere-se no grupo dos segundos. Ninguém tem o direito de ser feliz: Todos temos o dever consagrado de ser e fazer felizes os outros!

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

...foi ao sote e trouxe uma cabazada de batatas...

...
Não lhe parecia muito bem estar a levar a cabo aqueles dois trabalhos ao mesmo tempo, mas… a vida assim se preparava e havia que aproveitar o tempo. Certo é que, por volta do meio-dia e já com o esterco tirado e amontoado do lado de fora da porta dos currais, junto á parede, lavou as mãos e foi á cozinha.
Mal tinha entrado, deu-lhe logo vontade de chamar a Maria para que se deliciasse com ele com  aquele cheirinho apetecível que se adivinhava viria do forno. Abriu a porta, acendeu uma mão cheia de agulhas para alumiar o forno e soltou um “Ah” de prazer incontido.

Ai que delicia lá estava! Tão amarelinho. Parecia até daquelas pessoas que andavam pela praia, com o corpo ao léu, e se tisnavam todas com o sol ficando com o corpo cor de cenoura. Fechou a porta outra vez e, falando com a mulher, foi ao sote e trouxe uma cabazada de batatas que mandou abrir ao meio e pôr a cozer na panela de três pernas. Com uma saladinha do quintal, com o leitão e aquela panelada de batatas, quando os filhos chegassem arregalar-se-iam ao almoço…

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Eram já oito horas.

Estava preparado o leitão.
Depois de tudo feito, acalmou. Roleirou o forno. Achando que ainda não estava suficientemente quente, pela cor do céu e lar, atirou-lhe mais umas achas para dentro. Enquanto elas ardiam, agarrou numa caneca de esmalte, deitou-lhe dentro uma colher de açúcar amarelo e verteu para a mesma o café que a Maria ali lhe tinha deixado. Sentou-se à mesa, agarrou num naco de broa, que untou com manteiga de porco, e comeu regaladamente. Eram já oito horas. Lançou o olhar ao forno e viu que o céu já estava branco. Roleirou-o novamente e depois, com o rodo, retirou quase todas as brasas para a lareira, mesmo debaixo da boca do forno. Pegou num tijolo burro e, com jeito e maneira, fê-lo deslizar com o roleiro para o fundo do forno de modo a poder apoiar a vara de loureiro sobre o mesmo. Agarrou na vara com o leitão e enfiou-a dentro do forno, a cabeça á frente, indo apoiá-la no tijolo burro que ali havia colocado. Agarrou depois a tampa do forno e colocou-a no sítio ficando assim a vara com o leitão suspensa entre o tijolo burro e a porta do forno.

Agora, com muita atenção, teria que permanecer por ali cerca de meia hora sempre com atenção ao forno. Não podia dali arredar pé não fosse o calor ser muito e, aliado à pouca experiência, vir a estornicar-lhe o animal. 
De pouco em pouco, ia tirando a porta e espreitando para dentro do forno. Assim se passaram cerca de quarenta e cinco minutos. Espreitando uma ultima vez para o forno e verificando que a coisa estava a correr bem, achou oportuno fechar a porta e deixar que o leitão se assasse por inteiro. Assim fez, abandonando a cozinha e dando ordem a dar outras voltas pelo quintal arrumando lenhas, ajuntando as agulhas mais sujas da estrumeira para um monte e enrregando a tirar a curralada aos bois...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

...era só enfiar-lhe a vara pelo meio das pernas...

Ainda não tinham dado as seis horas e já o Manel se encontrava a pé. Deu comer a toda a gadagem, carregou uma gabela de lenha para o borralho e depois de atear o fogo à panela de ferro de três pernas, cheia de água, pôs o lume ao forno. Levaria umas boas duas horas a aquecer de forma a assar convenientemente o leitão. Foi á casa da adega e trouxe o animal para cima da mesa da cozinha. Já tinha arranjado uma vara de loureiro, direitinha e resistente, para espetar no porco e fazê-lo rodar dentro do forno.
Observou convenientemente o animal por todo o corpo, não fosse alguma varejadeira ter deixado ali a sua postura, e, metendo a mão pela abertura que fizera para tirara as tripas de dentro da barriga, arrancou as banhas que ali tinham ficado. Com a navalha fez uns cortes de dentro para fora, sem cortar a pele no pescoço, espáduas das mão e ancas para que o tempero ali acudisse e o chícharo ficasse mais gostoso.
Agora era só enfiar-lhe a vara pelo meio das pernas, onde outrora fora o cu, e fazê-la sair na boca! Assim fez. Espetou depois um prego a meio do focinho do porquito ficando este cravado na vara de loureiro. Estava seguro na cabeça. Puxando pelas pernas, esticou-o e amarrou à vara com um arame. Estava esticadinho que era um primor.
Deu uma olhadela no forno e prantou lá para dentro mais uns rachões.
Arrancou do campo de alhos, preso no pião da chaminé, algumas cabeças que desfez em dentes e que depois descascou. Pediu uma bacia pequena, à Maria, que prontamente lha colocou junto ao porco, e começou a moer os dentes de alho com a ponta de um rachão. Depois dos alhos bem moídos, juntou-lhe a pimenta, o sal e a manteiga de porco. Era só mexer bem e colocar aquela massa dentro do porquito na barriga e no corte do pescoço. Enfiou depois uma agulha de coser sacos com fio de vela e coseu o corte da barrida e o do pescoço de modo a que a massa ali colocada não escorresse para fora.

Hábil cirurgião seria incapaz de fazer trabalho mais perfeito!

domingo, 18 de dezembro de 2016

Ih cum raio!

Ih cum raio! Atão não havia de experimentar ele também e fazer como aqueles que querem fazer figura? Ai isso é que havia!
E assim nasceu a ideia que estava a por em pratica hoje mesmo. Falou lá com a Maria e ala  matar o treçó e a infiá-lo na vara. Tamain os convidados eram todos de casa: resumiam-se aos filhos e só aos filhos.
E lá pôs mãos ao trabalho. Foi á cerca do curral, apanhou a mãe distraída e… zás. Agarrou por uma perna o filho mais pequeno. Ele bem que gritou desalmadamente e a mãe bem que o queria abocanhar mas de nada valeram tais intenções. Quase davam a conhecer á terra inteira o fim que o esperava. Nem o espernear nem a gritaria demoveram o Manel de cumprir a vontade e executar a sentença pondo-lhe fim à vida com golpe certeiro de navalha no pescoço. De nada valeram gritos nem estrebuchos. A Maria havia-se-lhe juntado e tinha trazido já a panela com a água a ferver para a estrumeira. Depois do bicho morto, que pesaria uns doze ou treze quilos, segurando-o pelas patas traseiras, o Manel enfiou-o dentro da panela, deixou-o ali estar um pouco e depois retirou-o e colocou-o sobre a mesa. Com um saco de juta deu em esfrega-lo firmemente arrancando-lhe a pele e todos os pelos do corpo. Já nem parecia um porco, aliás, depois de lhe ter sido aplicada nova entrada na panela, desta vez seguro por uma orelha e esfregado novamente nos quartos traseiros, pode dizer-se que o bicho de porco já não tinha nada.

Pelos e pele arrancados, e estava pronto para ser amanhado e enfiado na vara. Colocou-o em cima da mesa, afiou bem a navalha e, com golpes certeiros, rasgou-lhe o pescoço desde e facada até ao queixal, do externo até perto do umbigo. Fez-lhe também o , soltando a cagueira e empurrando-a para o interior do corpo para retirar todo o tripado e miudezas do animal. Os cortes não ficaram tão pequenos como gostaria mas, para uma primeira vez, até que nem estavam nada maus. Vamos lá a ver se o resto assim corre. Com muito jeito, meteu uma das mãos pelo corte na barriga, arrancou o tripado e retirou-o para fora. Depois meteu novamente a mão e agarrando a traqueia, previamente cortada e separada na goela, puxou e retirou os pulmões, coração e fígado. Não se esqueceu de retirar os rins. Agora sim, estava o porco limpinho. Foi só passar-lhe uma água corrente na bomba e pendura-lo na casa da adega para que escorresse algum tempo. Amanhã dar-lhe-ia um fato novo…

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

E trabalho? Perguntas bem.

...
E trabalho? Perguntas bem.
Tanto eu como a Maria sabíamos o que era o trabalho dos e nos campos e foi por aí que nos orientámos. Começámos a nossa vida com treze contos de reis e mais cinco notas. Olha a fortuna que nos deram no dia do casamento! No nosso dinheiro de agora serão aí uns sessenta e cinco euros, mais coisa menos coisa. Para angariar mais algum, dei em trabalhar de ajudante de mestre. Ganhava oitenta mil réis por dia. Era bom dinheiro e trabalhava de sol a sol. No fim desse trabalho, para ajudar a Maria, lá agarrava a gadanha, amarrava o leva tudo á bicicleta e rumava aos foros apanhar uns feixes de erva para ela dar as bezerras no dia seguinte. O que eu sofri a puxar aquele leva tudo! Não havia caminhos como agora, não. Eram carros de gado, areia solta e caminhos de terra batida. Enquanto dava para andar de bicicleta, andava. Quando deixava de dar, largava a bicicleta, agarrava no leva tudo e ala que se faz tarde. Olha que eu tinha que subir uma baleira de areia branca a puxar o carro, (ainda lá está o sítio pois a areia já foi vendida e retirada!) descê-la, passar a corrente dos fojos e então ir para a terra. Aquilo é que eram tempos! E a garra com que eu lhe dava para acabar depressa o trabalho e ir para junto da Maria?! Nem queiras saber. Já com a carrada feita, punha uma corda amarrada ao carrito, fazia-lhe uma alça que passava nos ombros e puxava que nem um jumento. O que eu sofri nesses dias até chegar a casa com a carrada! Mas se tiveres pachorra, contar-te-ei pormenores deste caso…
Olha lá, e que tal ficarmos por aqui hoje e irmos beber uma pinguita? Tenho ali um parreirol feito ainda por mim com os cachos do quintal e da latada da cozinha que é de beber e chorar por mais. Que me dizes?...

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Era mesmo e só amor e uma cabana!

… olha rapaz, passei muito mal nos meus primeiros tempos de casado. Casei com cinco dedos em cada mão.
Casei por amor e ainda hoje vivo com a minha Maria por amor.
Sempre dividimos tudo o que tivemos. Dos filhos á fartura, passando pela doença, pelas tristezas, pela alegrias, pela faltas de cada um e acima de tudo sempre vivi a pensar mais nela que em mim. Se calhar estou a faltar á verdade. Quando digo que pensava mais nela que em mim, vê se me entendes, não quero dizer que me alheava de mim mesmo ou que deixasse de viver. Ei vivi, vivia e vivo fazendo tudo para a fazer feliz! É que vendo-a feliz, eu sou feliz também. Mas acredita que nunca escondemos nada um ao outro. Até agora tudo foi por nós partilhado e a suprema virtude queremos encontrá-la quando partilharmos a morada eterna. Sim, por que os nossos dias aqui, com a vontade de Deus, estão contados. Mas estamos preparados para isso. Não sabemos quando vai ser mas sabemos que um dia será. E olha que vivemos felizes! Quando faltarmos um ao outro, vai ser uma experiência que só um viverá.
Mas não penses que estou no desânimo. Não. Estou aqui são e fero. As cruzes, ás vezes, é que inrregam a dar sinal mas nada que não aguente.
Olha, logo que casámos apartamos casa dos nossos Pais. Fomos viver para uma casa velha, com poucas condições mas foram o bastante para nos conhecermos melhor e enraizarmos o amor que no unia.
Para tomar banho, aquecíamos a água numa panela grande que a Maria foi comprar à feira e levávamos-nos numa bacia ainda maior que de lá veio também. Tínhamos uma retrete junto ao poço, na cerca das galinhas. Sim! Tu ris-te? Mas era verdade! Ainda a necessidade não tinha saído completamente do corpo e já a guerra se tinha declarado lá em baixo! Mas fomos muito felizes naqueles tempos.

Era mesmo e só amor e uma cabana!
...

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

E assim foi a minha tarde de hoje!

- Olha lá, serias capaz de me escrever uma cartita, que eu te noto, para o meu Joaquim que anda lá pelos Brasis há mais de três meses e ainda lhe não escrevi nada? Era um favor grande que me fazias
- Com certeza, ti Manel. O prazer será todo meu. Mas não tenho aqui papel nem envelopes de avião.
- Ah, não te apoquentes com isso. Eu já fui ali á taberna da Rosa e merquei lá uma folha e um envelope. É só escrever, dobrar e coloca-la dentro do envelope para eu amanhã ir levar á ambulância dos Correios lá na estrada de alcatrão, no S. Tomé das Cascalhas. Até já tem selo e tudo. Fazes-me então esse favor? Anda que não perdes nada com isso e no fim ainda vamos ter tempo de ir jogar uma bisca e beber um parreirol lá ao Zé Calvoeiro que o tem lá bem bom.
E assim foi a minha tarde de hoje!
Ia ouvindo com atenção, escrevendo frases corretas e cumprindo exactamente as suas declarações e determinações, pondo no papel a mensagem de irmão para irmão. Falou-lhe de tudo. Do tempo aos campos e cearas. Das vindimas e dos namoros na terra, Das mortes e dos nascimentos. Até do rol dos porcos lhe falou e das percas que pagou no rol dos bois.
Hora e meia depois de começar, já estávamos no Zé Calvoeiro, lá perto do Cruzeiro, a provar o parreirol do homenzinho.

Há dias assim. Outros virão…

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Olha ê cá até me consolava...

… ai caredo. Olha a descompostura que ela passou á filha. Aquilo são lá coisas que se digam a uma cachopa daquelas? 
Atão que culpa teve a cachopa do rapaz gostar dela? Eles não são solteiros? Se calhar queria que ela lhe fosse pedir autorização para ao passear na rua, ou ir á fonte quando a mandasse, se rir para este ou aquele com quem se cruzava nesses caminhos. 
A bem dizer que lhe ficou mesmo mal falar da maneira que falou mesmo sendo para a filha. 
Qual é a mulher que ouvindo um piropo bem agradável, não esboça um sorriso por muito ténue que seja? 
"Olha ê cá até me consolava cando o mê Zé me dzia munto baixinho que eu era linda cmo sol."
Certo que não apregoava aos setes ventos o teor das nossas conversas. Mas que ficava toda inchada, lá isso ficava.  
"Atãn e tu cachopa? Num ficavas? Ou o tê Antoino nunca te chamou linda"
Querem lá ver? Sabe Deus o que ela fez no tempo dela. Vejam lá o crime que a cachopa cometeu por se ter rido para o rapaz e ele lhe ter atirado um beijo com a mão. Calhando, tamain queria, é o que é! Vai-te mundo…

terça-feira, 8 de novembro de 2016

... fizeram-nos regressar ao torrão natal com uma mão à frente e outra atrás!

... vi-o ao longe e mal queria acreditar que fosse ele! Quem o viu e quem o vê! Arrastando as pernas, apático, alheio ao que o rodeia, lá vai fazendo o seu passeiozito, à volta da casa e um pouco mais para cada lado desta. Muito lento, de braços caídos, e uma candura de criança na face… Foi quem foi. 
Abalou cedo para as Áfricas com os pais em busca de melhores condições de vida. Por lá andou uns anos e voltou à terra desenlaçar uma cachopa, enleio de seus olhos, um pouco mais nova, mas que, após um curto namoro, lhe disse que sim e... ei-los no altar perante familiares e amigos na presença do Pároco a dizer “sim”.
Ela era um peãozinho a dançar na eira do Ti Manel ao som da concertina do Ti Clarito e do violão do Ti Barrinha, ou mesmo e só ao som do gira-discos… grandes, embora curtas, tardadas ali se passaram…
Pouco depois todos voltaram à terra dos sonhos por concretizar… Ali passaram os melhores anos das suas vidas. Fizeram e criaram três filhos e, embora com vida montada, forças alheias fizeram-nos regressar ao torrão natal com uma mão à frente e outra atrás! Estávamos em 1974…
Com o que puderam trazer e algum apoio conseguido, instalaram-se construindo casa própria e desenvolvendo actividade profissional ligada ao ramo que conhecia.

Criar filhos não é tarefa fácil. E ele fez-se ao mundo acumulando atividades sobre atividades… Numa destas, e uma vez mais, a vida lhe foi madrasta… e porque não há duas sem três, ei-lo doente. 
E é ela quem arregaça as mangas, como sempre soube fazer. Bebe o líquido das fontes da alma, calada, sofrida, mas sempre de rosto sorridente, lá se vai governando e acarinhando o “seu home”: aquele a quem um dia disse um “sim” sentido, sério e apaixonado…

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Como se o tempo fosse coisa de que se pudesse dispor!

Passei pelas Crastas, devagarinho, e entristeci ao ver como estão as terras e o que ali já foi há anos atrás. De toda aquela área, dezenas de hectares, há uma só terra, talvez meio hectare, está ainda em cultivo. Algum teimoso que não sabe fazer outra coisa e se vai “divertindo” fazendo o que sempre fez, da forma que lhe ensinaram e se recusa a renovar ideias. Tudo o resto, em todo o alcance da vista, são pinheiros e eucaliptos numa imensidão imensurável. E pus-me a lembrar a fisionomia dos que recordo que ali trabalharam. São tantos! Todos aqueles terrenos eram cavados à enxada ou lavrados por juntas de bois e/ou vacas e depois semeados â mão. Entre-ajudavam-se trocando tempo!
Como se o tempo fosse coisa de que se pudesse dispor!
É claro que não, mas dele se tirava proveito e partido: vou para ti cavar, vens para mim cavar. Vou para ti semear, vens para mim semear. Ela por ela. E assim os trabalhos se tornavam menos pesados, as amizades se fortaleciam as sementeiras se tornavam em novidade e as pessoas iam falando de si, do tempo, dos outros, fazendo previsões, futurando casamentos, lamentando doenças e mortes e, dividindo afazeres multiplicavam valores sociais, humanos e económicos.
Tudo se trocava. A todos se ajudava. Chegavam a pedir “tiços” ou mesmo e só uma brasita, para acender o lume noutra casa, gastando-se assim um só fósforo para atear o lume em duas, três e mais casas em cada dia
Era o sino da torre que a todos chamava. Marcava horas para dar inicio e terminar trabalhos. Chamava à oração! Gritava por socorro e auxílio tocando a rebate. Juntava as pessoas para o bem e para o menos apetecível e agradável com o seu toque altaneiro…

O respeito era sagrado. Mesmo na limpeza das extremas entre terras as enxadadas de terra que s tiravam do fundo destas eram colocadas ora dum lado, ora do outro para não prejudicar nenhum dos exploradores do terreno, pois ela tinha caído de ambas as terras de cada lado da extrema…

domingo, 22 de maio de 2016

Acampamento meio aciganado ...


O acampamento meio aciganado à sombra e abrigo do edifício do antigo estaleiro, a salada russa disponibilizada pela Mila, o fogo-de-artifício no Mar, os galos velhos da Fátinha, os leitões do Rui, a Corrida de Bateiras à Vela, a Corrida de Chinchorros, o carapau do Fernando Maranhão, as inúmeras minis (e algumas minis maiores!), o champanhe fresquíssimo, os garrafões de rico tintol e a chuva torrencial que deu banho aos ousados e corda nos sapatos aos mais incautos e destemidos foram as imagens de marca e motivo para o título da presente crónica.
Razões tiveram o Maranhão e a Glória (que nós francamente desconhecemos!?!) para partirem como imigrantes para tais terras com a promessa de, dali, procederem ao envio cartas de chamada para as famílias amigas (leia- se Raul, Mila e sobrinhas netas, Pereira, Fátinha e Gonçalo, Ceirão e Sofia, Jorgito, Guida e prole, Jonathan, Joana e o ai Jesus da festa (entenda-se Iris!), Duda e Ana, Márcio e Katiusca, Fernando Maranhão e Eliete e o Mano Velho Luís) para os presentearem com as delicias do local e convívio ali criado, grupo a que gostosamente se juntou ainda o Rui Castelhano, a Celeste, a Avó Lena e dois casais amigos e residentes nas proximidades do local, mais propriamente do outro local do canal de Ovar da Ria de Aveiro.

A coisa começou a prometer e cedo tomou forma, ficando reforçado o grupo inicial com os pesos pesados chegados quase no fim do dia.

Os tempos iniciais dos imigrantes em terra alheia são sempre difíceis, levando os empreendedores da missão algum tempo a ambientar-se. Mas, cai aqui, bebe em todo o lado, levanta-se acolá, deixam rasto e trilham alegremente o caminho que o futuro lhes reserva.

De mais a mais que os anfitriões se aprimoraram com a marcação e delimitação dos lugares para edificação das maisons de trapo de todos e cada um dos que receberam a carta que os ali levou desunhando-se em diligências para que todos se acomodassem no mais curto espaço de tempo e usufruíssem das melhores condições do local: água canalizada nas proximidades, energia elétrica no candeeiro apagado, WC’s disponibilizados após presença em filas compactas, variedades em anfiteatro e programas musicais, ao vivo, durante toda a noite, bebidas sempre frescas à custa dos garrafões de água gelada, etc.

Funcionou lindamente o catering não faltando os ovos fritos, cozidos e… crús (?!) no período próximo do raiar do sol. Tampouco foi descuidada a programação do passeio para ver nascer este astro, à beira mar, como ansiava a Fátinha…

Aventuraram-se pela desconhecida Avenida do Comércio, com mais de um quilómetros de comprimento, ladeada dum lado por feirantes amontoados e do outro por idênticos comerciantes, acomodados, e comenta aqui, critica ali, chegaram ao confronto com uma barraca de chouriças, queijos, torresmos, bacalhau e boa disposição, com pregões sui géneris como “ compre aqui minha senhora, compre! Compre aqui que estes raios não estão cá para me dar lucro nenhum” (calhando referindo-se ao nosso grupo!) logo ali se muniram de queijo, chouriça e painhos para acomodar o estomago e assim fazer peito pró que desse e viesse.
E assim, de saco de plástico na mão, percorrem a mencionada avenida, rumo ao Alberto das botas para bateram com o nariz na porta!

Já está fechado há algum tempo!
O facto não os demoveu! Recuaram um pouco e abaquetaram-se frente a umas canecas dignas desse nome e de uma pratada de caracóis do mar… deliciando-se (ou não, pois nem cheiro largavam!) com o esgar de sofrimento que mostrava um manobrador de espeto onde havia depositado dois couchons, sem casaco e gordura limpa que teimavam em dançar a zumba mesmo na incómoda posição em que os colocaram.

Os primeiros tempos foram de ambiente encantador, com clima e temperatura agradáveis e a coisa parecia correr sobre rodas. Soube deliciosamente a salada fria apresentada pela Mila. O dia foi longo. Teve muito mais que vinte e sete horas, as três últimas gastas no gládio e refreio de quem os queria combater e dominar: a fome, a sede e a boa disposição! E surge nesse momento a primeira surpresa: Alguém, que se veio a saber estar ali para o mesmo fim, ter dado a entender que era exímio tocador de gaita-de-beiços, facto que levou os mais novos a, munidos de guitarra, cavaquinho, jambé e reco reco, se deslocarem à maison de trapo donde saía o agradável som e, descaradamente, defrontarem o individuo tocando, cantando e fazendo com que o Fernando Maranhão se saísse com um convite franco, pronunciado em elevado e imperativo tom de voz: Temos aqui um artista! Que se apresente e engrosse o grupo! E não é que o Homem veio mesmo e quase se esqueceu de que não conhecia nem era conhecido de ninguém?
Pois já se tinha ido o som das três quando a farra prometeu acabar!

Mas o Maranhão que se lembrou que ainda não tinha ceado!!!!
A conversa agradou ao Ceirão que de imediato saiu da maison e se dirigiu para a área comum, anexa “á despensa” donde saíram uns ovitos, umas chouriças, uns queijos e… umas minis!

Assim sim! Agora já podiam ir descansar que outro dia estava já á porta…
E começou pouco depois um ritmado baque, baixinho e cadenciado que até parecia música suave para os ouvidos dos que se encontravam já a saborear o conforto da falta de lençóis! Mas a coisa compôs-se rapidamente e mais um dia surgiu...

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Estava um tempo de cigarras...


… e encontrei-o sentado à sombra no telheiro. Esperava mais alguém pois havia mais dois banquitos além daquele em que se encontrava sentado. Saudei-o e ele salvou-me com um efusivo aperto de mão e a justificação de que só não se levantava porque as pernas não o ajudavam a fazê-lo. Indaguei-o acerca da identidade de quem esperava mais mas ele respondeu que era para quem aparecesse e quisesse ficar na cavaqueira mais a gente. Satisfez-me esta resposta e predispus-me a tomar apontamentos acerca dos temas e assuntos que á conversa vinham. Falou-me de si e dos seus, falou do tempo, da novidade e a certa altura a conversa descambou para a vida alheia. Trazia ali um grão de areia na sapato por causa duma vizinha numa terra do fojo.
Pedi-lhe e propus-lhe que mudássemos o rumo à conversa pois não tinha interesse o assunto a que se referia mas sempre o fui ouvindo não fosse ele melindrar-se e fechar-se em copas não restando mais conversa. O que sei é que o assunto, pouco depois, já estava esquecido e a boa disposição retomada.
Estava um tempo de cigarras. Poucas formigas se viam a moirejar. Esta moda das férias é que lhe dava continas. Não podia aceitar que se desperdiçasse tempo precioso, de barriga pró ar. À semana, deitado na areia da praia… e tanto trabalhinho para fazer. Modas. Modas que não havia de levar a lado denhum. E atão é que tanto eram os que tinham farinha como até os que de farelo tinham pouco! Que raio de igualdade era esta? Atão pa descansar não bastaba o domingo do Senhor? Foi isso que ele aprendeu na doutrina e sempre respeitou e cumpriu. Nasceu e viveu para trabalhar e comeu e come para se alimentar. Não vive para comer mas come para viver. E se ele é um bom garfo. Sempre sempre, não, mas de duas em duas horas sabe-lhe bem meter calquer coisita à boca.
Verdade seja dita que sendo um homem pequeno, bem entrado na idade, magro mas rijo, ninguém tem conhecimento de alguma vez ter abusado quer nas comidas, quer nas bebidas. Carne e ou peixe pouco come mas vai-se deliciando com as sopas que a Maria faz no borralho e a vida vai-lhe sorrindo. Não se queixa de muitas dores nem tem necessidade de trabalhar mas lá vai fazendo o seu quintalito com as novidades e criando as suas galinhas e patos. Porcos e vacas é que já desistiu de criar. Mas galinhas, isso sim, são carne com que se delicia sempre que lhe apetece. Ainda agora lhe nasceu mais uma ninhada de treze que traz á solta pelo quintal atrás da pedrês. Lá lhe vão depenicando as couves mas não se importa porque são muitas. As ervas vai arrancando nelas e atira-as prá cerca. Tudo o que é gado de bico, derrete com tudo - e na verdade na cerca - não se vê uma só ponta de folha verde. E depois os restos das sopas e as cascas das batatas é para lá que são atiradas também pois também é de lá que vem os ovos que tanto aprecia...

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