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Á mulher que, munida de cantara de barro caneca
e prato de esmalte, vendia água nas feiras de Portomar e Mira, carregando-a á
cabeça das fontes mais próximas do local da feira: Descanso, Canto de Riba,
Meneza, Barrocas, Meio-alqueire, João Toito, Maceira, da Bica, e outras, apelidavam
de aguadeira. Vendiam água “á canecada”!
Muita gente vai ainda hoje às fontes em causa
abastecer-se, embora haja já abastecimento de água canalizada ao domicílio,
para consumo em casa.
Vestia saia e blusa de chita, cinta preta,
lenço de cachené, chapéu de pena, avental de popelina, algibeira para guardar o
dinheiro, (sim, porque a água, antes de ser bebida, tinha que ser paga! Tostão
cada canecada que ás vezes dava para matar ou amenizar a sede a três e quatro!)
calçando chinelo de celeiro.
Usava ainda rodilha de trapos para transporte
da cantara à cabeça, cantara de barro, prato e caneca de esmalte (o prato para
tapar a cantara e a caneca para medir a água).
Quando se deslocava para a fonte, lavava a
cantara à cabeça, mas deitada e o prato e a caneca na mão. Quando regressava da
fonte, rodilha na cabeça, cantara colocada sobre a mesma, prato de esmalte
tapando a cantara e caneca de esmalte de fundo ao ar, sobre o prato.
Raramente tinha necessidade de colocar a mão à
cantara para a equilibrar. A prática era tanta que quase era desnecessária tal
atitude.
Também foi homem que trabalhava de sol a sol
nas “ Olarias “ do Carvalho (pertença do ti Aurélio Redondo, do Ti Arménio
Rocha, do Ti João do Carvalho, do Ti Albano do Russo,...) locais onde se faziam
os adobes (blocos maciços, feitos de uma mistura de seixos rolados, de tamanhos
diferentes (areia grossa e gorda) com cal viva trazida por “ carreiros” (como o
Ti Amândio Oliveira, numa junta de bois) do Barracão, local onde existiam os
fornos que “ coziam” a dita cal, também denominada de “ cal flor”.
Eram usados para a construção da casa
Gandaresa, de muros de vedação, de poços (com balseiro ou só com cambota).
Existem ainda vestígios dos “ poços” (vulgar e
correntemente designados por covas de adobes) donde se extraía a areia em
causa, “ à formiga” (Trabalho coordenado, feito quase sempre por homens, era
duro, estes posicionavam-se por patamares, um ou dois em cada patamar, com
níveis diferentes de altura, quase sempre em linha ascendente, começando aqueles
que andavam no fundo da cova ou poço a “pazar” a areia para o patamar mais
próximo, que se situava mais perto do fundo e deste patamar outro onde outros
homens a passavam para o patamar seguinte, e assim sucessivamente até atingir a
superfície. Chegavam a retirar a areia de profundidades da ordem dos seis a
oito metros, em poços com diâmetro de cerca de trinta palmos (entre oito a dez
metros de diâmetro)!
Chegou a vestir calção de cotim até ao joelho com bolso atrás,
camisa de riscado, chapéu de palha, aba larga, lenço tabaqueiro ao pescoço (com
o qual limpava o suor, mais que muito atendendo ao esforço e condições e local
de trabalho:- “ óculos de sol”) e
quando lhe calhava ter de ir queimar a cal e misturá-la com a areia, calçava
botas feitas de câmaras de ar de rodas de camioneta, para proteger os pés e
pernas dos efeitos da cal viva ou flor.
Recorda com muita lucidez as formas dos adobes
(casa, muro, três quartas ou galgas) e a inseparável enxada de cem mil réis,
além do carro de mão e da padiola para transporte da massa. A cada trabalhador,
o patrão entregava um carro de mão, instrumento que ele tinha que ir mantendo
nas melhores condições para dar o máximo rendimento, já que tinha no mínimo que
acompanhar os colegas, não podendo deixar a sua “esteira” de adobes ficar atrás
dos demais no final do dia. Conta até que usava de artimanhas para tentar ficar
sempre com mais alguma massa no fim do dia: - era dos primeiros a tirar a
massa, tirando pouca, para acabar de gastar a carga mais cedo e aí, sim, na segunda
e terceiras voltas, carregar o carro “á molhelha” para poder render e ter de
amassar menos que os outros. Mesmo no trabalho, já havia manhas e manhas!
Tanto a meio da manhã
como a meio da tarde, os homens paravam alguns momentos para acomodar o estômago,
comer um naco de broa e um rabo de sardinha assada, muitas vezes gelada, mas
que sabia que era um primor.
A broa era cosida em
casa, uma vez por semana, fornada que tinha que dar para os sete dias, não
podendo ninguém da casa ser “desarrendado”.
Os moleiros ou moços dos donos dos moinhos,
homem ou mulher, recolhiam o milho de casa em casa, levavam-no para o moinho
onde era transformado em farinha pelas mós, movidas pela força do vento ou da
água. Faziam entrega da farinha correspondente na semana seguinte, depois de
ficar com a maquia, recolhendo novo taleigo de milho. Normalmente os sacos
possuíam marcas próprias de cada proprietário, que eram do conhecimento do
moleiro e/ou da moleira, sendo muito raro ocorrer a troca dos taleigos.
Utilizavam para o transporte dos sacos, um
burro ou uma besta, com albarda, mais tarde um carro de boi ou vaca.
Tanto quanto há conhecimento, havia moinhos de vento
e de água, nas Cabeças Verdes, pertencente ao ti Artur Capeloa e no Seixo,
próximo do quintal de Joaquim Oliveira, de vento, pertencente ao ti Parrano (?),
aos “Olívios” e, na Vala dos Almeidas, lá para os lados dos Sobrados, da Ti Luz
do Carlos.
Neste trabalho, o moleiro vestia calça e colete
de cotim, camisa de riscado, gorra ou bóina, cinta preta e lenço tabaqueiro ao
pescoço, calçando botas de atanado, isto inicialmente, pois mais tarde, para
poupar a roupa, usava calça e camisa de linho, branco, a farinha não se via
tanto e não era necessário lavar tanto a roupa, poupando-se em tempo, sabão e
no próprio tecido que durava muito mais!
Do traje fazia parte também um saco de linho
para transporte da taleigada ou arrumo da maquia.
Instrumento que nunca abandonava o moinho era o
picão para avivar as moentes e jazentes.
Se era criada ou moleira, vestia saia de fioco,
avental de riscado, blusa de gorgorina, cinta preta, lenço de cachené e chapéu
Gandarês, calçando tamancos, sem meias.
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